sexta-feira, 21 de março de 2014

Dia Mundial da Poesia 21 de Março

 

 

  

 

Elegia do Amor

Lembras-te, meu amor, 
Das tardes outonais, 
Em que íamos os dois, 
Sozinhos, passear, 
Para fora do povo 
Alegre e dos casais, 
Onde só Deus pudesse 
Ouvir-nos conversar? 
Tu levavas, na mão, 
Um lírio enamorado, 
E davas-me o teu braço; 
E eu, triste, meditava 
Na vida, em Deus, em ti... 
E, além, o sol doirado 
Morria, conhecendo 
A noite que deixava. 
Harmonias astrais 
Beijavam teus ouvidos; 
Um crepúsculo terno 
E doce diluía, 
Na sombra, o teu perfil 
E os montes doloridos... 
Erravam, pelo Azul, 
Canções do fim do dia. 
Canções que, de tão longe, 
O vento vagabundo 
Trazia, na memória... 
Assim o que partiu 
Em frágil caravela, 
E andou por todo o mundo, 
Traz, no seu coração, 
A imagem do que viu. 

Olhavas para mim, 
Às vezes, distraída, 
Como quem olha o mar, 
À tarde, dos rochedos... 
E eu ficava a sonhar, 
Qual névoa adormecida, 
Quando o vento também 
Dorme nos arvoredos. 
Olhavas para mim... 
Meu corpo rude e bruto 
Vibrava, como a onda 
A alar-se em nevoeiro. 
Olhavas, descuidada 
E triste... Ainda hoje escuto 
A música ideal 
Do teu olhar primeiro! 
Ouço bem tua voz, 
Vejo melhor teu rosto 
No silêncio sem fim, 
Na escuridão completa! 
Ouço-te em minha dor. 
Ouço-te em meu desgosto 
E na minha esperança 
Eterna de poeta! 
O sol morria, ao longe; 
E a sombra da tristeza 
Velava, com amor, 
Nossas doridas frontes. 
Hora em que a flor medita 
E a pedra chora e reza, 
E desmaiam de mágoa 
As cristalinas fontes. 
Hora santa e perfeita, 
Em que íamos, sozinhos, 
Felizes, através 
Da aldeia muda e calma, 

Mãos dadas, a sonhar, 
Ao longo dos caminhos... 
Tudo, em volta de nós, 
Tinha um aspecto de alma. 
Tudo era sentimento, 
Amor e piedade. 
A folha que tombava 
Era alma que subia... 
E, sob os nossos pés, 
A terra era saudade, 
A pedra comoção 
E o pó melancolia. 
Falavas duma estrela 
E deste bosque em flor; 
Dos ceguinhos sem pão, 
Dos pobres sem um manto. 
Em cada tua palavra, 
Havia etérea dor; 
Por isso, a tua voz 
Me impressionava tanto! 
E punha-me a cismar 
Que eras tão boa e pura, 
Que, muito em breve — sim! 
Te chamaria o céu! 
E soluçava, ao ver-te 
Alguma sombra escura, 
Na fronte, que o luar 
Cobria, como um véu. 
A tua palidez 
Que medo me causava! 
Teu corpo era tão fino 
E leve (oh meu desgosto!) 
Que eu tremia, ao sentir 
O vento que passava! 
Caía-me, na alma, 
A neve do teu rosto. 

Como eu ficava mudo 
E triste, sobre a terra! 
E uma vez, quando a noite 
amortalhava a aldeia, 
Tu gritaste, de susto, 
Olhando para a serra: 
— Que incêndio! — E eu, a rir, 
Disse-te — É a lua cheia!... 
E sorriste também 
Do teu engano. A lua 
Ergueu a branca fronte, 
Acima dos pinhais, 
Tão ébria de esplendor, 
Tão casta e irmã da tua, 
Que eu beijei sem querer, 
Seus raios virginais. 
E a lua, para nós, 
Os braços estendeu. 
Uniu-nos num abraço, 
Espiritual, profundo, 
E levou-nos assim, 
Com ela, até ao céu 
Mas, ai, tu não voltaste 
E eu regressei ao mundo. 

Teixeira de Pascoaes

In: Prosa e Poesia

segunda-feira, 3 de março de 2014

Contracapa





 As letras espalhadas marcam o sinal,

Das folhas esquecidas ou arrancadas.

Da capa e contracapa gélidas,

Do que fingi não ler afinal

Dos murmúrios da tua entrada

Triunfal! Diga-se… naquele túnel

Tenebroso…cheio de pedras

Que te marcaram os pés

De tanta tinta largada ao acaso

Deste livro que quero só para mim.


 ©Cristina Gonçalves D' Camões (2014)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

TU













TU amor nas palavras q’ alentavas,
Poderosas ao acordar d’ Aurora,
Da estrela polar onde mora,
O canto lírico que amavas.

E eu, meu amor que no peito,
Senti tuas palavras num gemido,
Num murmúrio onde me deleito,
Que nunca antes houvera sentido!

Que nas nossas mãos se beijassem…
E na eternidade amor, se banhassem.
Os nossos corpos mágicos e a nu

Porque longe de ti mora a saudade,
Porque a quimera…agora verdade,
Porque neste sentir amor…apenas TU!


Cristina Gonçalves D' Camões (2014)


Imagem: Filme "O Espírito do Amor"

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Além de...


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ofuscada por ele...

No silêncio da noite!

Nos crepúsculos que enfatizam,

A sombra e o gemido.

Que naquela madrugada,

Invadiram o espaço daquele tecido,

Que cobriu subtilmente os corpos…

Daquele encontro que se fez carne!



Cristina Gonçalves D' Camões (2013)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Tornar-se Humano...


Ainda bem que errar é humano

Ainda bem que a imperfeição é humano

Ainda bem que voltar atrás é humano

Ainda bem que escrever para lá das linhas é humano

Ainda bem que a arte é uma produção humana

Ainda bem que a compaixão é humano

Ainda bem que crescer é humano

Ainda bem que Cristo se fez homem para ser humano

Ainda bem quer ter medo é humano

Ainda bem que a racionalidade e consciência são humanos

Ainda bem que a desilusão é humano

Ainda bem que arriscar é humano

Ainda bem que cair é humano

Ainda bem que tropeçar é humano

Ainda bem que não saber é humano

Ainda bem que a consciência de pensar é humano

 

 

domingo, 5 de janeiro de 2014

Palavras ao vento



“E de repente ali estava eu, arrepiada, trémula de emoção pelas palavras que ficaram por dizer e que talvez tenham morrido sem nunca ter visto a luz da aurora. Leva-me (pensei)…leva-me contigo deste marasmo, desta vida sem sal.
Em vão, afinal os pensamentos ainda não fazem eco nas outras mentes e ser-lhe-ia impossível adivinhar o meu desejo.
Em vão, afinal é tão difícil decifrar uma alma atordoada, esgotada pela amargura da vida (não vida… pensei novamente).
Os meus olhos ficaram imóveis vendo o seu desaparecimento no horizonte, deixei-me cair de joelhos no chão frio daquela calçada que eu conhecia tão bem. Sinto-me completamente molhada e rodando o corpo subitamente levanto-me assustada, agarro os lençóis com força insistindo em não acreditar que tudo foi um sonho. Subitamente ele levanta-se agarra-me e diz-me ao ouvido: “estou aqui, está tudo bem, tiveste um pesadelo”.

Nesse momento senti-me novamente em casa e deixei-me cair para trás e fui envolvida pelo seu abraço e voltei a adormecer…”


In: "Palavras ao vento"

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Desalinho político-espirito-social

Andar desalinhado às vezes é necessário para conseguir entender o seu contrário.
Ser louco é isso mesmo, um desalinho da linha que toda a gente nos ensina a seguir religiosamente, sem falhar. Aprendemos desde cedo que as regras são para cumprir sem questionar, mas esquecemos que essas regras muitas vezes foram criadas por pessoas que entendem muito pouco da vida e que possivelmente entendem menos de regras do que nós.
Andar desalinhado ou sentir-se à margem do mundo actual infelizmente faz parte de uma grande maioria. Infelizmente porque é muito difícil viver deste modo, pois afasta as pessoas do dito “normal”, “aceitável” ou “previsto”. Ao longo dos tempos o humano foi sendo limitado socialmente pelas instituições que através de uma lavagem de mentes controlam as opiniões, as modas, os modos, os pensamentos, etc. A igreja desempenhou muito bem esse papel durante séculos, crucificando, queimando, limpando, todos aqueles que ousaram usar o seu pensamento crítico. O humano foi domesticado através do medo: do pecado, do julgamento final, do que há-de vir, mas nunca virá. Com o desenvolvimento económico a máquina controladora passou a ser o poder económico dos países industrializados. Agora criam-se doenças em laboratório, inventam-se motivos para começar uma guerra, colam-se rótulos de “crónico” a perturbações do foro psicológico para as quais existe tratamento, mas que os lóbis querem que sejam encaradas como doenças fatais e para toda a vida. Estou certa que do mesmo modo que agora achamos escandaloso a “lobotomia” como tratamento para uma doença do foro psicológico (passado meio século), daqui a algumas décadas vamos saber que é escandaloso o tratamento que se tem dado a pessoas perfeitamente equilibradas, mas que acabam num hospital psiquiátrico completamente domesticáveis e animalizadas com o olhar perdido no horizonte e sem expressão emocional.
Num mundo assim é melhor NÃO SER!
Não ser alinhado na norma, não adorar a igreja, mas sim o universo e a natureza, não subestimar a inteligência de quem sabe pensar. Não crer em tudo o que advém do catolicismo apostólico romano como uma lei, que condena a protecção contra doenças sexualmente transmissíveis, que reduz a relação sexual ao acto de procriar, de julgar a diferença de muitos, sem causa aparente.

Vivemos uma condição política de vazio, tal qual um horizonte sem sentido, a Europa actual está solidificada nos escombros de um conjunto de países que brincam à moeda única e fingem ter raízes nacionalistas e cultura própria. O caso adquire contornos mais graves quando falamos especificamente de Portugal: país do saudosismo, que cada vez mais se afasta da missão genuinamente nacional da descoberta de um caminho espiritual e do “modo de ser português”. 

Cristina Gonçalves D' Camões (2013)