segunda-feira, 2 de março de 2015

O amor é









O amor é…

Um casamento d’aparência
Da sociedade castradora
De fingir que se ama
De viver do estatuto
Daquele que mente
Do que não se sente

O amor é…

As promessas fictícias
As juras dos dedos cruzados
Escondidos para não mostrar
O desejo de esquecer
Viver vidas de ilusão
D’egos alimentados pela razão

O amor é…

Estar onde querem
Para acertar a vida doutros
Que não sabem o que dizem
Maltratar a magia do amor
Fingir estar onde esperam
Aqueles que de nós nasceram


O amor seria…

Amar perdidamente
Sem dogmas, nem egos
D’encontros aclamados
Profundos
De pétalas de tulipas
Marcadas pela cor
Da fusão no outro
Da alma que se une
À outra parte do seu EU
Mais que profundo
Que anseia nunca mais
Se perder do (S)EU mundo.



©Cristina Gonçalves D' Camões (2012)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Paraíso
















Teus olhos, esmeraldas d’aurora ardentes,
Da alvorada que te traz à minh’ Alma.
Deste encontro que há séculos sentes?
Como uvas da saudade que acalma…

Meu Amor quisera eu te encontrar!
Da esperança outrora sentida…
Num sorriso que me dá vida,
E correra eu meu amor para te amar.

Quando o meu corpo estremece de desejo,
Porque quero encontrar-me nos abraços,
Desta fusão D’Almas no paraíso.

E ficar-me nos teus braços,
Para me desaparecer no teu beijo
E singela mergulhar no teu sorriso!



©Cristina Gonçalves D' Camões (2015)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Vento Do Espírito














Senti passar um vento misterioso,
Num torvelinho cósmico e profundo.
E me levou nos braços; e ansioso
Eu fui; e vi o Espírito do Mundo.

Todas as cousas ermas, que irradiam
Como um nocturno olhar inconsciente,
Luz de lágrima extinta, não sentiam
A trágica rajada, que somente

Meu coração crispava! Ó vento aéreo!
Vento de Exaltação e Profecia!
Vento que sopra, em ondas de mistério,
E tanto me perturba e me extasia!

Estranho vento, em fúria, sem tocar
Nas mais tenrinha flor! E assim agita
Todo o meu ser, em chamas, a exalar
Luz de Deus, luz de amor, luz infinita!

Vento que só encontras resistência
Numa invisível sombra. . . Um arvoredo,
Ou bruta pedra, é como vaga essência;
E, para ti, eu sou como um penedo.

E na minha alma aflita, ó doido vento,
Bates, de noite; e um burburinho forte
A envolve, arrasta e leva, num momento;
E vai de vida em vida e morte em morte.

Vento que me levou, nem sei por onde;
Mas sei que fui; e, ao pé de mim, bem perto,
Vi, face a face, a névoa a arder que esconde
O fantasma de Deus, sobre o deserto!

E vi também a luz indefinida
Que, nas trevas, se fez, esclarecendo
Meu coração, que voa, além da vida,
O seu peso de lágrimas perdendo.

E aquele grande vento transtornou
Minha existência calma; e dor antiga
Meu rude e frágil corpo trespassou,
Como a chuva uns andrajos de mendiga.

E fui num grande vento; e fui; e vi:
Vi a Sombra de Deus. E, alvoroçado,
Deitei-me àquela sombra, e, em mim, senti
A terra em flor e o céu todo estrelado.



In: As sombras, Teixeira de Pascoaes

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A Vida

Florbela Espanca, nasceu a 8 de Dezembro e decidiu morreu no mesmo dia. Poetisa grandiosa, genuína, a sua alma era grande demais para a época em que viveu. Um hino à eternidade com o seu poema "A Vida"...





É vão o amor, o ódio, ou o desdém; 
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés d'alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!
Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo donde vem!
A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...
Amar-te a vida inteira eu não podia...
A gente esquece sempre o bem dum dia.
Que queres, ó meu Amor, se é isto a Vida!...

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Lusíada Paixão














Terra minha que tão cedo,
Te fizeste moça na aurora.
Das águas que te banham
E me fazem acreditar na tua Arte.
Dos cargueiros que te percorrem,
Levando o teu nome à eternidade.
A cor que me fez amar-te…
Pois já vai longe a mocidade,
D’ este desatino estético,
Profundo, leve e D’ Irmandade.
De quem diz o que pensa.
Ai! (…) Minha Terra quisera eu,
Amar-te para lá do Douro.
Destas gentes rebeldes,
Deste desatino de marca.
A tua identidade de moça
E mulher, que espera e acolhe.
Neste tecido escorregadio,
Que te marca…que te penetra.
Nesta pertença!
Quisera eu nunca abandonar-te!
No sentir que me beija à nascença.
Porque quem nela habita então:
Torna-se guerreiro e sincero!
Num disparo genuíno
De quem diz eternamente…
O que pensa!

©Cristina Gonçalves D' Camões (2014)

Imagem: Criação de André Gandra (Designer de Moda), que me colocou o desafio de escrever um poema tendo como inspiração o padrão do tecido


terça-feira, 22 de abril de 2014

(Re)escrevo

No silêncio do teu olhar

(Re)escrevo novas linhas,

De outras flores que caiem,

E não deixam saudade de Ti!

Do crepúsculo daqueles dias,

Esquecidos no devir da ilusão...

Porque as aves já não voam,

As flores não acordam,

O sol já não nasce para nós.

Ficaram na quimera

As promessas sentidas,

As certezas utópicas,

D’este amor tenebroso.

Que metamórfico seria...

- Não fora o esquecimento,

Daquilo que afinal Não Queria!
©Cristina Gonçalves D' Camões (2013)

segunda-feira, 31 de março de 2014

Dependência


 
 
 
 
 
 
 
 
Deambulando caminha

Para o desconhecido.

Coitado! Atordoado, cai!

Mergulhado na escuridão,

D’ entrega à substância.

Milagrosa, anestesiante.

Que lhe permite sair,

Estando no mesmo lugar,

Naquela cama gélida.

Naquelas roupas gastas

Pelo tempo esperado em vão.

Já deixou de esperar,

Já deixou de querer

Viver assim moribundo.

Só lhe resta desejar a morte,

Que o levará para lá de si.

Daquele corpo tóxico,

Dopado de ilusões.

Viver é um desequilíbrio…

Um acto de coragem latente.

Suplica que a dose seja

Aquela que… (finalmente)

O fará (re)nascer das cinzas!


 ©Cristina Gonçalves D' Camões (2014)