segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A Vida

Florbela Espanca, nasceu a 8 de Dezembro e decidiu morreu no mesmo dia. Poetisa grandiosa, genuína, a sua alma era grande demais para a época em que viveu. Um hino à eternidade com o seu poema "A Vida"...





É vão o amor, o ódio, ou o desdém; 
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés d'alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!
Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo donde vem!
A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...
Amar-te a vida inteira eu não podia...
A gente esquece sempre o bem dum dia.
Que queres, ó meu Amor, se é isto a Vida!...

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Lusíada Paixão














Terra minha que tão cedo,
Te fizeste moça na aurora.
Das águas que te banham
E me fazem acreditar na tua Arte.
Dos cargueiros que te percorrem,
Levando o teu nome à eternidade.
A cor que me fez amar-te…
Pois já vai longe a mocidade,
D’ este desatino estético,
Profundo, leve e D’ Irmandade.
De quem diz o que pensa.
Ai! (…) Minha Terra quisera eu,
Amar-te para lá do Douro.
Destas gentes rebeldes,
Deste desatino de marca.
A tua identidade de moça
E mulher, que espera e acolhe.
Neste tecido escorregadio,
Que te marca…que te penetra.
Nesta pertença!
Quisera eu nunca abandonar-te!
No sentir que me beija à nascença.
Porque quem nela habita então:
Torna-se guerreiro e sincero!
Num disparo genuíno
De quem diz eternamente…
O que pensa!

©Cristina Gonçalves D' Camões (2014)

Imagem: Criação de André Gandra (Designer de Moda), que me colocou o desafio de escrever um poema tendo como inspiração o padrão do tecido


terça-feira, 22 de abril de 2014

(Re)escrevo

No silêncio do teu olhar

(Re)escrevo novas linhas,

De outras flores que caiem,

E não deixam saudade de Ti!

Do crepúsculo daqueles dias,

Esquecidos no devir da ilusão...

Porque as aves já não voam,

As flores não acordam,

O sol já não nasce para nós.

Ficaram na quimera

As promessas sentidas,

As certezas utópicas,

D’este amor tenebroso.

Que metamórfico seria...

- Não fora o esquecimento,

Daquilo que afinal Não Queria!
 
 
©Cristina Gonçalves D' Camões (2013)

segunda-feira, 31 de março de 2014

Dependência


 
 
 
 
 
 
 
 
Deambulando caminha

Para o desconhecido.

Coitado! Atordoado, cai!

Mergulhado na escuridão,

D’ entrega à substância.

Milagrosa, anestesiante.

Que lhe permite sair,

Estando no mesmo lugar,

Naquela cama gélida.

Naquelas roupas gastas

Pelo tempo esperado em vão.

Já deixou de esperar,

Já deixou de querer

Viver assim moribundo.

Só lhe resta desejar a morte,

Que o levará para lá de si.

Daquele corpo tóxico,

Dopado de ilusões.

Viver é um desequilíbrio…

Um acto de coragem latente.

Suplica que a dose seja

Aquela que… (finalmente)

O fará (re)nascer das cinzas!


 ©Cristina Gonçalves D' Camões (2014)

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dia Mundial da Poesia 21 de Março

 

 

  

 

Elegia do Amor

Lembras-te, meu amor, 
Das tardes outonais, 
Em que íamos os dois, 
Sozinhos, passear, 
Para fora do povo 
Alegre e dos casais, 
Onde só Deus pudesse 
Ouvir-nos conversar? 
Tu levavas, na mão, 
Um lírio enamorado, 
E davas-me o teu braço; 
E eu, triste, meditava 
Na vida, em Deus, em ti... 
E, além, o sol doirado 
Morria, conhecendo 
A noite que deixava. 
Harmonias astrais 
Beijavam teus ouvidos; 
Um crepúsculo terno 
E doce diluía, 
Na sombra, o teu perfil 
E os montes doloridos... 
Erravam, pelo Azul, 
Canções do fim do dia. 
Canções que, de tão longe, 
O vento vagabundo 
Trazia, na memória... 
Assim o que partiu 
Em frágil caravela, 
E andou por todo o mundo, 
Traz, no seu coração, 
A imagem do que viu. 

Olhavas para mim, 
Às vezes, distraída, 
Como quem olha o mar, 
À tarde, dos rochedos... 
E eu ficava a sonhar, 
Qual névoa adormecida, 
Quando o vento também 
Dorme nos arvoredos. 
Olhavas para mim... 
Meu corpo rude e bruto 
Vibrava, como a onda 
A alar-se em nevoeiro. 
Olhavas, descuidada 
E triste... Ainda hoje escuto 
A música ideal 
Do teu olhar primeiro! 
Ouço bem tua voz, 
Vejo melhor teu rosto 
No silêncio sem fim, 
Na escuridão completa! 
Ouço-te em minha dor. 
Ouço-te em meu desgosto 
E na minha esperança 
Eterna de poeta! 
O sol morria, ao longe; 
E a sombra da tristeza 
Velava, com amor, 
Nossas doridas frontes. 
Hora em que a flor medita 
E a pedra chora e reza, 
E desmaiam de mágoa 
As cristalinas fontes. 
Hora santa e perfeita, 
Em que íamos, sozinhos, 
Felizes, através 
Da aldeia muda e calma, 

Mãos dadas, a sonhar, 
Ao longo dos caminhos... 
Tudo, em volta de nós, 
Tinha um aspecto de alma. 
Tudo era sentimento, 
Amor e piedade. 
A folha que tombava 
Era alma que subia... 
E, sob os nossos pés, 
A terra era saudade, 
A pedra comoção 
E o pó melancolia. 
Falavas duma estrela 
E deste bosque em flor; 
Dos ceguinhos sem pão, 
Dos pobres sem um manto. 
Em cada tua palavra, 
Havia etérea dor; 
Por isso, a tua voz 
Me impressionava tanto! 
E punha-me a cismar 
Que eras tão boa e pura, 
Que, muito em breve — sim! 
Te chamaria o céu! 
E soluçava, ao ver-te 
Alguma sombra escura, 
Na fronte, que o luar 
Cobria, como um véu. 
A tua palidez 
Que medo me causava! 
Teu corpo era tão fino 
E leve (oh meu desgosto!) 
Que eu tremia, ao sentir 
O vento que passava! 
Caía-me, na alma, 
A neve do teu rosto. 

Como eu ficava mudo 
E triste, sobre a terra! 
E uma vez, quando a noite 
amortalhava a aldeia, 
Tu gritaste, de susto, 
Olhando para a serra: 
— Que incêndio! — E eu, a rir, 
Disse-te — É a lua cheia!... 
E sorriste também 
Do teu engano. A lua 
Ergueu a branca fronte, 
Acima dos pinhais, 
Tão ébria de esplendor, 
Tão casta e irmã da tua, 
Que eu beijei sem querer, 
Seus raios virginais. 
E a lua, para nós, 
Os braços estendeu. 
Uniu-nos num abraço, 
Espiritual, profundo, 
E levou-nos assim, 
Com ela, até ao céu 
Mas, ai, tu não voltaste 
E eu regressei ao mundo. 

Teixeira de Pascoaes

In: Prosa e Poesia

segunda-feira, 3 de março de 2014

Contracapa


 
 
 
 
 
 
 
 As letras espalhadas marcam o sinal,

Das folhas esquecidas ou arrancadas.

Da capa e contracapa gélidas,

Do que fingi não ler afinal

Dos murmúrios da tua entrada

Triunfal! Diga-se… naquele túnel

Tenebroso…cheio de pedras

Que te marcaram os pés

De tanta tinta largada ao acaso

Deste livro que quero só para mim.


 ©Cristina Gonçalves D' Camões (2014)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

TU













TU amor nas palavras q’ alentavas,
Poderosas ao acordar d’ Aurora,
Da estrela polar onde mora,
O canto lírico que amavas.

E eu, meu amor que no peito,
Senti tuas palavras num gemido,
Num murmúrio onde me deleito,
Que nunca antes houvera sentido!

Que nas nossas mãos se beijassem…
E na eternidade amor, se banhassem.
Os nossos corpos mágicos e a nu

Porque longe de ti mora a saudade,
Porque a quimera…agora verdade,
Porque neste sentir amor…apenas TU!


Cristina Gonçalves D' Camões (2014)


Imagem: Filme "O Espírito do Amor"