segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O Arco das Espumas














O mar rolou as suas ondas negras
Sobre as praias tocadas do infinito

Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia
As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento
O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento
Sophia de Mello Breyner Andresen
In: Obra Poética: No tempo dividido, p 282-283

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Murmúrio












Murmura-me baixinho o teu gemido.
Deixa-me cantar-te neste Amor,
Fala-me baixinho ao ouvido…
São rosas…pétalas…este ardor.
Porque na noite a chuva chamas,
As pétalas entoadas neste viver.
De ti e de mim a quem amas:
Deste amor que está a amanhecer
D’aurora crescente sem dormir,
Acompanhas o orvalho de mim.
Deste amor que surge no devir,
O infinito desta paixão sem fim.

Cristina Gonçalves D' Camões (2012)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Ilumina-me














Vieste sem avisar
Meu amor que tanto sonhei
Encontrar-me com a esperança
D’uma noite que não quero esquecer
Longe de ti os dias são frios
Longe de ti a lua não tem luz
Ilumina-me! Leva-me até ti!
Disseste-me em desespero

Porque longe de ti
Os ventos não sopram
O mar não me beija
As noites são o silêncio
Amor!
Anda comigo pela vida

Minh’alma que tu conheces
Como a outra que é a tua
Traças-me com um pincel
Bordas em mim a marca dos teus sonhos

Quem soubera?
Porque junto de ti…
Meu amor já deixei de ser
Quimera.


Cristina Gonçalves D' Camões (2012)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Lucidez D’Aurora













Lembro-me o que fui…o que era
Dias e gélidas noites dolorosas,
Lembranças amargas d’uma primavera
Que nas rochas duras e assombrosas
Cravaram a desilusão e desamor
D’aqueles que não sentiram a quimera
Eis que a lucidez d’aurora fez furor
Daquele que paira e nada espera
Do grito desta vida tão estranha
Que anseia apenas e só: Viver!
Ai! Que eu nem soubera da manha
Das rochas velhas que quero esquecer!
Cristina Gonçalves D' Camões (2012)

domingo, 16 de setembro de 2012

O POVO

Escrevia Guerra Junqueiro
que este povo é
Imbecilizado, resignado,
humilde e macambúzio- 1896(...)

Pobre Povo:
Quer justiça, mas resignado...
Em nome da equidade
Os malandros do centralismo
Mandam sem parar
Burros de gabinete;
Pobres de espírito.
Indulgente nação,
Que mostra o silencio
Dos filhos dos lóbis,
Que comem,
Medram,
Crescem.
...Vão e vêem...
Sem razão
Criam cargos inúteis!
E engordam
Os cordões das bolsas.
Um povo apagado,
Uma justiça injusta
Cheia de lacunas.
Dão-lhe o fado...
E calam todas as bocas
Melancólica nação
Perante os comedores
Dos acordos ortográficos
D’uma vassalagem
Àqueles que usam a nossa língua
E mandam cá dentro.
Querem eles saber d’alguma coisa?
E no fim das contas:
Contemplam os paraísos
Filosófico-fiscais!
Cá nós...só nos resta:
PAGAR?

Cristina Gonçalves D' Camões (2012)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

TRÁGICA RECORDAÇÃO

Meu Deus, meu Deus! Quando me lembro agora
De o ver andar no mundo, de repente,Seu vulto me aparece, transcendente,
Mas tão perfeito e vivo como outrora!
Julgo que ele ainda existe, e que, lá fora,
Fala em voz alta e brinca alegremente,
E volve os olhos verdes para a gente,
Dois berços de embalar e luz aurora!
Julgo que ele ainda vive, mas já perto
Daquele tenebroso abismo aberto
Que avistamos no instante derradeiro!
Ó visão da criança, ao pé da morte!
E a da mãe, tendo, ao lado, a negra sorte
A calcular-lhe o golpe traiçoeiro!

In: “Elegias – Trágica Recordação”, Teixeira de Pascoaes, p. 239