quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Lucidez D’Aurora













Lembro-me o que fui…o que era
Dias e gélidas noites dolorosas,
Lembranças amargas d’uma primavera
Que nas rochas duras e assombrosas
Cravaram a desilusão e desamor
D’aqueles que não sentiram a quimera
Eis que a lucidez d’aurora fez furor
Daquele que paira e nada espera
Do grito desta vida tão estranha
Que anseia apenas e só: Viver!
Ai! Que eu nem soubera da manha
Das rochas velhas que quero esquecer!
Cristina Gonçalves D' Camões (2012)

domingo, 16 de setembro de 2012

O POVO

Escrevia Guerra Junqueiro
que este povo é
Imbecilizado, resignado,
humilde e macambúzio- 1896(...)

Pobre Povo:
Quer justiça, mas resignado...
Em nome da equidade
Os malandros do centralismo
Mandam sem parar
Burros de gabinete;
Pobres de espírito.
Indulgente nação,
Que mostra o silencio
Dos filhos dos lóbis,
Que comem,
Medram,
Crescem.
...Vão e vêem...
Sem razão
Criam cargos inúteis!
E engordam
Os cordões das bolsas.
Um povo apagado,
Uma justiça injusta
Cheia de lacunas.
Dão-lhe o fado...
E calam todas as bocas
Melancólica nação
Perante os comedores
Dos acordos ortográficos
D’uma vassalagem
Àqueles que usam a nossa língua
E mandam cá dentro.
Querem eles saber d’alguma coisa?
E no fim das contas:
Contemplam os paraísos
Filosófico-fiscais!
Cá nós...só nos resta:
PAGAR?

Cristina Gonçalves D' Camões (2012)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

TRÁGICA RECORDAÇÃO

Meu Deus, meu Deus! Quando me lembro agora
De o ver andar no mundo, de repente,Seu vulto me aparece, transcendente,
Mas tão perfeito e vivo como outrora!
Julgo que ele ainda existe, e que, lá fora,
Fala em voz alta e brinca alegremente,
E volve os olhos verdes para a gente,
Dois berços de embalar e luz aurora!
Julgo que ele ainda vive, mas já perto
Daquele tenebroso abismo aberto
Que avistamos no instante derradeiro!
Ó visão da criança, ao pé da morte!
E a da mãe, tendo, ao lado, a negra sorte
A calcular-lhe o golpe traiçoeiro!

In: “Elegias – Trágica Recordação”, Teixeira de Pascoaes, p. 239

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Mais Triste do que Estar Triste



Mais triste do que estar triste
É sentir que não se sente
Estar num marasmo

Mais triste do que estar triste
É a miséria de não querer
Assumir o que se sente

Mais triste do que estar triste
É a ignorância de si mesmo
Numa ilusão constante

Mais triste do que estar triste
É ser moribundo duma sociedade
Escondida nos dogmas

Eu cá:

Prefiro Mil vezes estar Triste
Prefiro Mil vezes Viver
Prefiro Mil vezes Milhões Sentir

e não me arrepender de ser fiel a mim mesma!

Cristina Gonçalves D' Camões (2012)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Silêncio














Encontro-me
Despida de mim e de todas as vestes.
Tendo-me outrora separado da essência,
D’ amargura das noites gélidas.
Aquelas que testemunham o silencio,
De Ti, da lua…
Do olhar teu que me desnuda.
Vem meu amor!
No teu rosto eu habito,
Nos jardins do teu silêncio
Que também é meu.
Encontro-me em Ti Meu Amor.


Cristina Gonçalves D' Camões (2012)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

NÃO-SER

Encontrar o sentido da vida é uma tarefa inútil! Vã! Descontínua…
“O sentido da vida é a própria vida” (Natália Correia)
Na necessidade da existência Divina, encontro-me numa encruzilhada que me leva a vários caminhos ou a nenhum. “Não jurarei que qualquer Deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem Deuses” (Natália Correia)
Crer na veracidade da vida é uma tarefa incompreensível e inatingível aos comuns mortais. Crer nas fadas, nos duendes seria uma fuga à realidade, seria uma tentativa falhada de chegar à fantasia que nos fizesse perceber a pobreza humana.
Os duelos existem apenas para elevar os egos dos fracos, dos que se escondem atrás das espadas numa tentativa de se elevarem a um nível que só existe nas suas mentes, nas suas vidas.
A maior parte dos duelos reduzem-se a uma tentativa de monopolização do poder… sobre os outros, as organizações, os países, o mundo. Para quê?
De nada serviram os séculos de conhecimento, de pensamento filosófico, de poesia, de música, de arte…
Para quê?
Tantas questões lançadas ao vento, que as leva sem destino. A única forma possível de chegarmos a nós é através do encontro com a natureza, os rios, as árvores, a vida.
A vida que nos dá vida. A vida que nos tira tudo e nos dá o NADA.
Não há melhor sensação do que o vazio, do nada. O vazio do nada tão temido leva-nos até ao fundo, torna-nos um quadro sem pintura, uma escultura sem rosto ou um livro sem palavras.

Podemos (re)escrever, (re)inventar, (re)programar, (re)viver ou mesmo (re)nascer de novo.
Começamos por um ponto e a dada altura já temos um conjunto de letras, palavras, frases, folhas e por aí fora.
(Re)Começar do nada é aproximarmo-nos da essência, da origem. Só esta sensação nos consegue levar ao sentimento dialéctico do NÃO-SER. Da ausência de existir, da negação do já atingido ficticiamente.
A verdade esconde-se algures no infinito do quadro sem pintura, da escultura sem rosto e do livro sem palavras.
O VAZIO (ao contrário do que a maioria pensa) pode assim, ser o início de um crescimento que poderá levar a uma elevação espiritual. 
Demagogias à parte e com humildade sou levada a pensar que só conseguimos existir no oposto de nós. Isto é. O que sabemos só pode existir no seu contrário. Encontrarmo-nos no vazio é ausentarmo-nos de tudo o que já existiu em nós. Escrever um livro sem palavras é permitir a criação de algo novo que se opõe ao já conhecido.