quarta-feira, 18 de abril de 2012

Creio - Ana Moura


Creio nos anjos
que andam pelo mundo
Creio na deusa
com olhos de diamante
Creio em amores lunares
com piano ao fundo,
Creio nas lendas,
nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho
que falta mais fecundo              
De harmonizar
as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno
num segundo,
Creio num céu futuro
que houve dantes,
Creio nos deuses
de um astral mais puro,
Na flor humilde
que se encosta no muro
Creio na carne
que enfeitiça o além
Creio no incrível,
nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo
pelas rosas,
Creio que o amor que tem asas
de ouro.
Amén
 ( Natalia Correia/ Jorge Fernando )

domingo, 8 de abril de 2012

Candura d’ olhar









Os olhos d’uma criança nunca mentem
Sem disfarce…sem fingir
O que não sente
Atada ao impulso animal
De descobrir mundos
Decifrar nomes…sentimentos
De querer abraçar a vida tão garota
Sem ter a real ideia do que a espera
D’uma sociedade corrupta
Mentirosa, rigorosamente falsa
Mas a criança de tantas ilusões
Caminha sem esperar
Encontrar o desamor, o desencanto
Rapidamente num ato de sobrevivência
Cresce…cria…e volta a viver
Mas um dia descobre
Que apenas a morte lhe dará a vida
(E)ternamente…verdadeira!


Cristina Gonçalves D' Camões (2012)

domingo, 18 de dezembro de 2011

Progne


Louca e estúpida
Andorinha sem rumo
Esgotas-te nesses caminhos
Que percorres sem nada ver
Vem comigo procurar-te
Imagina que o canto
Dos teus iguais
Preenche ingenuamente
Os trilhos onde navegaram
Encontra-te
Percorre-te
Busca lá a lucidez
Separa os iguais
Afasta a invídia
Das incrédulas que te observam
Ficam cegas de tanto
…E de nada…
Retidas e estagnadas
Coitadas?
Andorinha…anda vem
Outras paragens se avistarão
No Deus eterno poético
Encontrarás refúgio
Porque ele habita em ti
Nas tuas entranhas
Para lá do Marão
Eu sei que consegues
Vem…
Encontra-te
Celebra-te
Idolatre
Aquilo que eras…Progne?
Já não te sentes assim
Agora bates as asas e
Tornas-te eterna
E acima das demais…

Coitadas…invídia(s)!

Cristina Gonçalves D' Camões (2011)


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ser Poeta




O poeta tem medo de si…
Encurralado nas suas
Entranhas estranhas…
E quebradiças que lhe esgotam a alma,
O espírito,
A tranquilidade
…de conseguir ser alguma coisa
E não ser nada.
Num desatino feroz!

De tanto gritar
Adormece a voz
Sem se querer perder
Esgotar, envolver
Porque dentro si mora a utopia,
Que é sentida como uma ferida
Desse drama que lhe dá vida

O poeta teme a chama
Da Alma inquieta
Que por tanto querer
Encontrar-se
Perde-se sem rumo no sofrer!

Ser poeta é não-ser?



Cristina Gonçalves D' Camões (2011)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A origem do Amor (ii)

                  
               











         L'enlèvement de Psyché

                 III

Pelo pretendente misterioso
Esperas d’amor sem o avistar
Do encontro fatal e misterioso
Daquele que ousaste amar

Resgate que não bastava
De coragem duma singela vida
Vede, o que tanto esperava
Como pudeste ser concebida

Tamanha beleza que hipnotizou
Por Zéfiro foste orientada
Ser testemunha de quem amou!
A um castelo que te deu morada

Cristina Gonçalves D' Camões (2011)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A origem do Amor


         L'enlèvement de Psyché
                  
                   I

D’Eros solta-se o sinal de partida
Para um encontro tão esperado
Do concílio que marcou a ida
Àquele momento tão aclamado

D’os genes eternos e imortais
Que tornara a deusa apetecida
Para o desconhecido marcado
Pelo sangue que lhe deu guarida

Psiquê que tanto esperas
Da aguardada imortalidade
Tamanha beleza desconcertante
Dessa perturbadora mocidade


                   II

A Deusa da beleza acorda
Tua perfeição cobiça despertou
Afrodite ordena e recorda
Que outros homens afastou

Dos seus templos esperam
A beleza, o culto e adoração
Doutra agora se apoderam
Mil homens e uma nação

Psiquê, simples e mortal
D’ Eros fatalmente atingida
Que nesse eterno sangue afinal
Foi colhido pela mesma ferida

Cristina Gonçalves D' Camões (2011)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Ignoração estadística



                     Carl Spitz  - O poeta pobre        

A ignorância desfaz-se na corrente lavada
De espumas contraditórias e ondulantes.
Nesta mítica orgia e maléfica escada
De cognoscíveis desconcertantes.

Estes degraus fúteis e descontentes
Deste escárnio e maldizer patente
Do estúpido contentamento (des)contente?
Numa inevitável lavagem de mentes
                                         
Feliz do que nada sabe observar!
Desta maioria absolutamente ignorante,
Desta civilidade doente para matar
Proparoxítona esta política errante.

Dos que nasceram para nada fazer,
E ainda dos que simplesmente
Numa artimanha deambulam
Parasitas de uma antiga corrente.

D’uma gélida e fictícia nação
Estes senhores, este direito torto 
Até Deus ressuscita d’uma aparição…
E o poeta… Ai! Esse assistirá morto!

Cristina Gonçalves D' Camões (2011)